sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Eu prefiro olhar pro mar...

Já repararam como sempre levantamos levemente a cabeça quando olhamos para o mar? É como se quiséssemos enxergar além do horizonte, buscar o infinito, transcender de nós mesmos e ir de encontro ao ponto onde o céu se funde à Terra e se torna impossível e desnecessário diferenciar o que é terreno do que é divino.

Por outro lado, nas cerimônias religiosas as pessoas se curvam, baixam a cabeça, se ajoelham e se submetem à pretensa autoridade de outro (seja do padre, do pastor, de Buda, Alá, Jesus ou qualquer outro), reduzidos à insignificância diante de algo que julgam tão superior e sublime.

Talvez meu ponto de vista seja ácido demais, mas estou convencido de que as religiões contribuem bastante para que a humanidade viva curvada. Presa a ilusões, preconceitos, verdades inventadas, intolerâncias, explorações e submissões de todo tipo. Inconsciente de suas infinitas possibilidades e mutilada em sua incrível capacidade de crescimento (seja através das lavagens cerebrais educacionais, das fogueiras, dos exílios, das proibições de estudo das células tronco, ou das mutilações mesmo).

Olhar para o mar sempre nos desafia ao sabor do mistério e ao medo do desconhecido. Ao contrário, baixar a cabeça e olhar para o chão sempre nos oferece o conforto de se vislumbrar os próprios passos, convencidos de respostas fáceis para perguntas que considero irrespondíveis (como, por exemplo: deus existe?)

Talvez exista... talvez estejamos todos destinados a desfrutar da paz infinita. Mas, enquanto estiver por aqui, prefiro a liberdade da dúvida, do indagar e do caminhar por si mesmo.

Não quero dogmas e certezas, mas sim poder “cantar a beleza de ser um eterno aprendiz”. Não quero consolos e sermões, mas sim a brisa fresca que vem do mar enquanto busco descobrir seus infindáveis enigmas. Não quero o doce dos discursos prontos e insinceros, mas sim o cheiro do sal e o calor as vezes insuportavel do Sol.

O maior risco de se olhar pro mar talvez seja o de se perder em sua infinitude e não desfrutar de sua própria existência, mas estou convencido de que se submeter ao “além-mundo” é a maior das perdições, e que mais vale se afogar na própria vida do que flutuar sem vida própria.

Prefiro olhar para trás e ver minhas próprias pegadas na areia, vacilantes e receosas, do que descobrir que as pegadas não eram minhas, mas sim que fui carregado no colo.

Eu prefiro olhar pro mar...

2 comentários:

Liva disse...

Caracos, muito bom texto, hein. Alguém já disse por aí que a religião é o ópio do povo, né? Concordo.

Lara disse...

meu querido! com certeza, eu tb prefiro olhar pro mar. Lembra uma história do Galeano linda, que transcrevo:

"Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: - Me ajuda a olhar!"

Eduardo Galeano - Livro dos Abraços


beijoss